DF - CUNHA/JORNALISTAS - POLÍTICA - O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), concede entrevista aos jornalistas setoristas da Câmara fazendo um balanço do primeiro semestre do ano, em uma café da manhã oferecido no anexo IV na Câmara dos Deputados, em Brasília. 16/07/2015 - Foto: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, em uma votação que decidiu por 450 a 10 na noite de ontem, teve seu mandato cassado. Cunha que foi acusado de ter mentido ao afirmar que não possuía contas no exterior em depoimento na CPI da Petrobras no ano passado, fica inelegível até 2027, perdeu o foro privilegiado e pode agora ser julgado pelo juiz Sérgio Moro.

Impactado com os últimos acontecimentos, Cunha se inspirou na carta de Gregório Duvivier para sua coluna na Folha, que comoveu a internet ao falar de sua ex-mulher, e decidiu publicar hoje uma carta ao seu ex-mandato. Confira na íntegra:

Desculpe o transtorno, preciso falar do mandato

Conheci ele no mandato do PT. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar Dilma e eu andando de mãos dadas pelo Palácio do Planalto e dançando jazz. Mas o mandato em questão era na verdade baseado em chantagens para que eu e Dilma continuássemos no poder. Ela estava lá. Pedalando. Nunca vou me esquecer: a bicicleta era uma Barra Forte, da Caloi.

Passamos algumas madrugadas votando na Câmara. De lá migramos pro Senado. Do Senado pro afastamento, do afastamento pra cassação.

Comecei a presidir quando a Casa tinha 190 e eu 55, mas parecia que a vida começava ali. Fizemos todas as manobras existentes. Rasgamos algumas vezes a Constituição. Abrimos contas no exterior. Escolhemos laranjas — inclusive minha mulher. Combinamos votos. Demos entrevista pro Cabrini e deixei Cláudia Cruz constrangida porque a conversa tava boa. Aprendi o que era petrolão e também o que era triplex, lava-jato, impeachment e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser cassado contigo.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Chorei dando entrevista mais que no final da última temporada de ‘House of Cards’. Mais que no começo de ‘Aquarius’. Até hoje não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: FORA CUNHA! Parece que, pra sempre, você vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse aceitado o pedido de afastamento da Dilma antes, eu penso. Levaria pra sempre o mandato comigo.

Essa semana, pela primeira vez, vi a foto com os brasileiros segurando cartazes “Cunha é corrupto, mas está do nosso lado”. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade profunda de ter vivido um grande amor na vida. E de ter esse amor documentado nos Panama Papers — e em tantos vídeos e fotos no Sensacionalista. Não falta nada.