O pau que nasceu torto se endireitou. Quase 20 anos depois de ser esnobada pela Academia de Ciências Cinematográficas de Hollywood, uma atriz brasileira ganha suas merecidas desculpas – e uma obra-prima nacional, o espaço que merece no panteão dos clássicos eternos.

A grande lição do longa Cinderela Baiana (Brasil, 1998; direção: Conrado Sanchez) é a de que a esperança sempre vence. A cena final, em que a personagem Carla Perez (interpretada por Carla Perez) livra crianças das ferramentas que simbolizam a tirania do patriarcado, ressoa até hoje nos mais altos círculos culturais brasileiros. Não é exagero dizer que a Cinderela de Carla foi nossa primeira feminista.

“Vai passarinho, você, como as crianças, também tem direito à liberdade”, diz Carla, reunindo forças para atirar uma enxada 30 centímetros à frente. Ainda exausta após a libertação , a heroína mostra por que é uma “tripple threat”: interpreta, canta e dança. Em 60 segundos, Carla retoma e avança o mito de grandes dançarinos como Gene Kelly, Fred Astaire e Ginger Rogers.

Em uma nota sóbria, a Academia desfaz a injustiça histórica citando o antigo grupo de Carla: “Tudo o que é perfeito, a gente pega pelo braço. Joga lá no meio, no meio do palco, no meio dos holofotes. É com humildade que pedimos desculpas por ter nomeado Judi Dench por um papel menor e não a senhora Perez.”

A cena final de Cinderela Baiana, ainda atual e tecnicamente sólida, mostra por que nunca é tarde para ter esperança:

M Zorzanelli