Há alguns meses tenho notado meu filho um pouco estranho. Ele passou a ser agressivo, não conversa com ninguém, passa o tempo todo no computador. Normal para um pós adolescente que sempre foi meio tímido. Esquisito, diriam as minhas amigas mais íntimas.

Fabinho passou a adotar um discurso contra minorias, especialmente gays. Criticava muito o nosso vizinho, o Silvinho, que há poucas semanas era seu melhor amigo. Silvinho é gay assumido e frequentava nossa casa. Fábio nos disse que não queria mais o Silvinho por ali, “aquele veadinho”, nas palavras dele.

Ontem, um dia depois da votação do impeachment, estávamos comentando horrorizados a homenagem que Jair Bolsonaro fez a Ustra, o torturador, quase em rede nacional. Perdi a linha. Disse que tinha vergonha de ser do Rio, estado onde ele recebeu uma enxurrada de votos.

Naquele momento o meu menino, o meu Fabinho, disse que queria conversar algo sério conosco. Havia uma confissão a fazer. Eu temi. Ele disse que não sabia por onde começar. Tentei parecer compreensiva. “Meu filho, pode me dizer qualquer coisa. Eu e seu pai estamos aqui para apoiar você em tudo”. Meu marido foi além. “A gente entende o mundo de hoje em dia”. Fabinho então respirou fundo, bebeu um gole de seu todinho e disse: “eu curto a página do Bolsonaro”. Tomada pelo ódio, senti um calor invadindo minhas entranhas e saindo pela minha boca. Quase cuspi na cara do meu filho. Não lambro bem o que houve depois, mas ouvi o Fabinho dizendo que nos odeia e defendendo a revolução. Desmaiei.

No histórico de seu computador, páginas de direita radical

Acordei um pouco mais calma e Fabinho não estava mais em casa. Saíra com seus novos amigos, um grupo que eu já vi pelas esquinas ridicularizando gays. Sei que não devia fazer isso mas entrei no quarto do Fabinho e comecei a mexer em seu computador. Eu queria mergulhar fundo, saber até onde ia esse ódio e entender mais meu filho. Tinha medo de que ele estivesse envolvido em coisas graves, com grupos organizados contra minorias.

No histórico de seu computador, páginas de direita radical. Outras incitando o ódio. Uma pesquisa sobre Ustra. Outra sobre fascismo. Meus temores cresciam. Até que piscou uma mensagem no Facebook. Paulo. “E aí, tudo bom?”. Olhei a foto do rapaz. Sarado, bonito. Em Meus bons tempos eu pegaria. Resolvi me passar por Fabinho e tentar descobrir mais sobre Paulo. “Tudo”, respondi. Plinio. “Tá triste ainda? Vamos ao cinema? O SIlvinho não te merece. Vem que eu vou te dar o que você precisa.”
Desliguei o computador aliviada. Acho que quepe foi o dia mais feliz da minha vida.