O engenheiro João de Souza Braga, assim como milhares de brasileiros, tinha um celular dual chip. Mas até então não havia sentido a necessidade de instalar outra linha no aparelho.

Isso até João notar que sua conta estava vindo muito alta porque vários de seus amigos tinham números de outras operadoras. “Resolvi comprar outro chip para falar com eles”, disse.

Um dos primeiros com quem João quis falar foi o advogado Ricardo Gomes, amigo de longa data.  Ao ligar para Ricardo do número novo, João resolveu testar o amigo e fingiu ser outra pessoa, quis apenas pregar uma peça. João disfarçou a voz e se apresentou como Milton.

Falando como Milton, conversou com Ricardo como se quisesse fechar um pacote de treinos. Mas ele foi longe demais. Marcou hora e local e combinou preço. Queria levar a piada ao limite.

“Fiquei espantado com o jeito como me senti à vontade, era como se fosse outra personalidade”, disse João. “Eu comecei a enganar outras pessoas. Liguei para amigos fingindo ser o Milton, interessada em fazer algum negócio e acabei alugando dois apartamentos e comprando um carro deles.”

“Acho que fiquei bipolar, pelo menos foi isso que um psicólogo me falou”, disse. “Eu não consiguia parar. É estranho.”

Uma vez, João atendeu o chip do número original com a voz de Milton e era seu chefe do outro lado da linha. “Tive que inventar uma historia de que eu tinha achado o celular na rua e queria devolver. Meu chefe acabou marcando comigo para pegar o celular e tive que pagar para um ator se passar pelo Milton.”

João teve que procurar ajuda. “O mais difícil foi arrancar o segundo chip do celular. Senti que estava matando Milton, que já parecia ser mais eu do que eu mesmo, sei lá”, disse. “Estou me tratando. Meu conselho para as pessoas com celular de dois chips é só um: o chip muda mas você não precisa mudar com ele.”