“Eu acho que tudo começou quando eu era adolescente. Como quase todos os vícios. Com caneta colorida, eu fazia carinhas sorridentes 🙂 nos cadernos e livros das amigas. Era minha marca registrada. E eu não percebi quando ultrapassei os limites, não dei atenção aos sinais. Durante muito tempo, meu problema ficou adormecido.

Até que comprei meu primeiro smartphone, no Natal de 2008. Era um Iphone 3G, que facilitou muito a minha vida, os meus contatos, a marcação de consultas de fisioterapia, que é a minha profissão. Ou era. Porque hoje estou numa clínica de recuperação escondida nas montanhas de Minas Gerais, tentando reestabelecer contato com o que já fui.

Não, meu vício não é o smartphone. É um caso mais complicado: eu não sei mais me expressar sem usar emojis.

Por favor, não ria.

O que parece engraçado para você, é o inferno da minha existência.

No começo, era tudo mais simples: um coração e algumas poucas carinhas expressando as emoções. Feliz. Triste. Sonolento. Era divertido e só isso.

Eu usava muito nas minhas mensagens de SMS, mas sentia que faltava algo. Nem tudo era preto ou branco. Eu precisava de 50 tons de emoji.

Alguns anos depois, minha preces foram atendidas. Os ícones se multiplicaram. Mais de trinta carinhas, nuances perfeitas para o meu dia-a-dia. Mãos e gestos. Flores. Animais. Um bode. Um camarão. Comidas. Bandeiras. Profissões. Respingos de água. As fases da lua. Bolas esportivas. Meios de transporte. Utensílios. Vestimentas. Um diabo feliz. Um diabo zangado.

Fezes sorridentes. Sim. Elas foram um marco em minha vida. Um ícone que me deu a sensação de que tudo era possível nesse mundo.

Esse conjunto de pequenas e graciosas imagens aos poucos foi substituindo as minhas palavras. Em vez de “poxa, que chato”, uma carinha de boca reta. Em vez de “adorei, um beijo”, um coração, uma carinha mandando beijo. Apenas dois cliques. Ótimo para mandar mensagens enquanto eu dirigia.

Até que sofri um acidente procurando o ícone da fatia de pizza para mandar para uma amiga. Eu precisava dele! Ela havia me chamado para bater um papo à noite e eu queria perguntar se ela topava uma pizza. Por isso precisava do emoji da fatia. Mas não conseguia encontrar enquanto dirigia. Então eu bati em um palio azul que decidiu parar bruscamente na minha frente.

Antes de sair do carro, ainda tonta, mandei para ela dois emojis de carros, um de frente para o outro, e uma carinha chorosa, esperando que ela entendesse o que aconteceu. Ela não entendeu, claro, e me telefonou.

Eu deveria ter parado depois disso. Mas não consegui. Viciei nas carinhas de gatinhos, que simulavam as humanas. Depois nos tipos e cores de coração, uma novidade que me arrebatou e me fez namorar três ao mesmo tempo, para que eu tivesse mais oportunidades de usar os emojis apaixonados.

Meu desafio de vida era conseguir resumir tudo que eu tinha a dizer em um ou dois emojis. Eu não pensava em outra coisa o dia todo. Até porque passava o dia todo em grupos de WhatsApp. Aos poucos, esse comportamento se inverteu: eu não mais pensava em como traduzir minhas palavras em emojis. O que eu fazia era pensar emojicamente. Pensar através daquelas figurinhas coloridas, diversificadas, expressivas.

Um só emoji valia mais do que mil palavras.

E então eu resolvi parar de usar as palavras.

Em vez de “bom dia”, eu usava um sinal de positivo + um sol.

Em vez de “estou com fome”, eu usava uma carinha se sofrimento + uma boca salivando ao lado de um pratinho de macarrão.

Em vez de “tô a fim de sair com você”, eu usava uma beringela ao lado de uma mão fazendo OK.

Eu nunca mais disse obrigado – apenas as mãos em sinal de reza, que depois me disseram que era um high five, mas eu não levei em conta, porque acreditava na ligação sobrenatural que eu e os emojis havíamos construído.

A primeira a perceber o vício foi minha mãe. Ela me telefonava e eu não atendia, forçando o envio de um WhatsApp. Que eu só respondia com emojis.

No trabalho, eu também preferia tudo por email, que eu respondia pelo iphone, com emojis.

Até que mandei um emoji errado e perdi o emprego. Era pra ter clicado no anjinho, mas minhas unhas estavam muito grandes e acabei esbarrando nas fezes. Meu chefe não entendeu. Até porque eu havia perdido a capacidade de me expressar em palavras.

Passei a ficar em casa. E foi exatamente quando o sistema operacional mudou e os emojis se multiplicaram ainda mais e foram criados os ícones com vários tons de pele. Aquilo me confundiu e me desesperou. Afinal, eu era a princesa de cabelo preto de pele branca ou com a pele um tom acima, um pouco mais morena?? Uma crise de identidade se abateu sobre mim. Num ato desesperado, tentei engolir meu Iphone, como se dessa forma eu e meus emojis nos transformássemos numa coisa só. Sorte que nessa época eu já tinha comprado um Iphone 6 Plus, grande demais para que eu conseguisse sequer colocá-lo na boca.

Agora estou aqui, na reabilitação, tomando remédios e tentando diariamente voltar a me expressar em palavras. Não está sendo fácil. Mas, quando as trevas tomam conta da minha mente, eu tento pensar de forma positiva: poderia ser muito pior – muito pior – se eu tivesse viciado em fazer coraçãozinho com a mão.