Nos últimos dias, o Brasil parece ter finalmente pegado uma febre que vinha tomando conta do mundo: Uber versus taxistas. Manifestações, textões de Facebook, gente que nunca usou o serviço falando bem, enfim, uma grande confusão.

Para que você pudesse ter uma opinião baseada em informações confiáveis, decidimos testar esse serviço que promete revolucionar a forma como nos movemos nas cidades.

Sábado, 10h20 da manhã: Pego o celular no bolso para chamar um carro do Uber. Só então percebo que não tenho o aplicativo instalado. Assim que acesso a loja de apps para baixá-lo, um carro preto para ao meu lado e a porta se abre. “Seja bem vindo ao Uber”, disse o motorista. Argumento que ainda nem havia instalado o aplicativo mas o motorista me acalma, me chamando pelo nome e agradecendo pela preferência. Começamos bem.

10h23 da manhã: O motorista já havia perguntado, citando os nomes, como estavam minha mãe, meu pai, minhas tias, o cachorrinho da minha prima que está com um problema no olho – ele me indicou um veterinário amigo dele que faria o serviço de graça – e agora oferecia uma taça de vinho branco pinot grigio da Borgonha, a mais gelada e refrescante que eu já havia tomado. Para navegar na internet, um iMac de 27″ e internet 100 MB/s.

Para beber, vinho branco pinot grigio da Borgonha. Para navegar na internet, um iMac de 27″ e internet 100 MB/s. Logo, uma massagista sueca acariciava meus ombros. Tudo dentro do carro e incluído na tarifa

10h30 da manhã: Depois de tomar duas taças do vinho, lembro que ainda não havia falado para onde queria ir. “Vamos para a rua Tito, número 140”,  eu digo. “A casa do seu amigo na verdade fica no número 132”, o motorista respondeu. “A numeração mudou no início do ano”. Bati palmas.

10h34 da manhã: O carro encosta no meio fio numa rua de pouco circulação. Pela primeira vez, sinto receio: o que está acontecendo? Ninguém sabe que estou nesse carro, aliás, um Rolls Royce Phantom presidencial. “Por que paramos?”, pergunto. A porta se abre e entra uma loura, na verdade, antes dela entram os peitos da loura. “Bom dia”, ela diz, com forte sotaque sueco. “É a sua massagista. Tudo por conta do Uber”, disse o motorista. A beldade sueca começa a me dar a melhor massagem que já tive na vida.

10h40 da manhã: A essa altura, dentro do espaçoso carro estamos eu, o motorista, a massagista sueca, um terapeuta que me sugeria formas de melhorar minha convivência com meus pais e, no canto, o humorista Marcelo Adnet esperando o momento de começar seu show de stand up só para mim. Tudo incluído na tarifa.

10h45 da manhã: Achei que o ar condicionado estava muito forte. Reclamei do frio e o motorista apertou um botão que revelou dentro do carro uma sala com lareira e pele de tigre no chão. Ali, pude deitar com a massagista enquanto o próprio Kenny G fazia um solo de saxofone. Mais pinot grigio foi servido enquanto ouvia o crepitar da lenha na lareira.

10h48 da manhã: Estamos chegando perto de meu destino mas, como a sueca está perto de revelar os mistérios da erótica massagem de Estocolmo, peço para o motorista dar mais uma volta.

10h50 da manhã: Fumando um cigarro e pensando em aprender sueco, sou surpreendido pelo motorista. Ele diz que, como eu deveria estar com fome, estende uma bandeja com camarões do tamanho de bananas da terra. Como com prazer enquanto ele termina de flambar as frutas da sobremesa.

10h56 da manhã: Chegamos ao meu destino. Sem saber como agradecer, pergunto ao motorista quanto foi. Cinco reais, ele diz. Era dia de promoção. Eu saio do carro e quase sou atropelado por um taxista que gritava “Eu quero ver a Rota na rua, estupra mas não mata, viva Maluf!”. Dou alguns passos e percebo que já não sinto mais uma dor que tinha no nervo ciático. Durante a viagem no Uber, minha dor nas costas havia sido curada.

11h00 da manhã: Termina minha primeira viagem no Uber. Nota 4/10.

Otileno Jr. e M Zorzanelli