Começou quando eu era bem pequeno, na escola. Eu não podia dar o braço a torcer para meus coleguinhas. Tropecei no corredor, mas não perdi a pose. Segui meu caminho, de forma acelerada e elegante.

Mais tarde, na adolescência, eu me apaixonei pela primeira vez. Eu amava a Manuela, ou achava que amava, como todo adolescente. Ela estava me esperando no portão na saída da escola quando eu tropecei e quase dei de cara no chão. Só não dei porque fingi que estava com muita pressa de vê-la.

Quando a fase adulta chegou, os tropeços eram mais frequentes. Mudei-me para o Canadá para trabalhar, e o gelo só facilitava minha propensão a beijar a solo. Mas eu corria alegremente, o que encantava os gringos. “Esses brasileiros são muito enérgicos mesmo”, eu ouvia sempre.

Eu só não esperava que meus tropeços fossem se tornar conhecidos em todo o mundo. Um belo dia, quando eu voltava do trabalho, tropecei no meio da rua e meu vizinho me filmou e postou o vídeo na internet. Meu andar desastroso tornou-se um dos virais mais vistos da história mundial. Eu já não era conhecido em nenhum círculo social pelo meu nome, mas pela alcunha de “Tropecinho”.

Entrei em depressão. Passava horas tropeçando dentro do quarto para que ninguém me visse. No máximo, eu tropeçava até o banheiro ou até a cozinha quando a fome e a sede apertavam. Passei meses assim, com vergonha e tristeza, até que um dia me olhei no espelho e não me reconheci. Decidi que era hora de enfrentar o mundo e falar abertamente sobre o meu problema e o preconceito que o rondava.

Hoje, de volta para o Brasil, já faz seis meses que não tropeço. Com a ajuda de minha religião e de muita terapia, eu tenho evitado esses tropeços dia após dia. Não tem sido fácil, mas acredito que posso superar esse vício. E, da próxima vez que eu tiver que tropeçar, talvez eu aprenda a conviver comigo mesmo e aceitar que posso pagar esse mico – e talvez perder um dente ou dois, mas quem não perde alguma coisa nessa vida?

Por @wandaladdams